Não esqueceremos: número de vítimas da estrada não pára de crescer

É difícil de acreditar que mais um ano se passou e pouco se fez para reduzir a dor e os prejuízos causados pela sinistralidade rodoviária. Nos últimos 20 anos, Portugal registou uma média de mil vítimas mortais por ano. “Isso seria o mesmo se, todos os anos, caíssem cinco aviões”, disse Mário Alves, presidente da Liga de Associações Estrada Viva e um dos fundadores da MUBi. 

Se este fosse o caso, temos certeza de que nenhum avião voltaria a voar, sem que se resolvesse o problema que está a matar tantas pessoas. No entanto, não parece haver constrangimento ou preocupação com as vítimas que circulam pelo espaço público urbano. Nenhuma pessoa precisa de morrer para que outra vá do ponto A ao ponto B. 

Morrer na estrada não é um efeito colateral necessário para vivermos as nossas vidas com conforto. Mesmo assim, as nossas cidades continuam a privilegiar o uso de automóveis, cada vez maiores e mais potentes, que circulam a velocidades comprovadamente assassinas. 

Todos os anos no mundo inteiro, mais 1 milhão de vítimas são adicionadas aos mais de 60 milhões de mortos e centenas de milhões de feridos desde a invenção do automóvel. É uma pandemia real, afectando principalmente os nossos mais vulneráveis ​, nomeadamente os jovens. Além do trauma de ferimentos e luto, a sinistralidade rodoviária também tem um impacto económico devastador para os países, comunidades e famílias. 

Governantes, engenheiros de tráfego e a indústria automóvel não podem ignorar essas vítimas e demitir-se da sua responsabilidade. Por isso, associámo-nos ao “Dia Mundial em Memória das Vítimas na Estrada” para exigir que Portugal cumpra os seus compromissos internacionais para com a vida e finalmente legisle o limite padrão de velocidade para 30 km/h dentro das localidades. 

Além da MUBi e da Estrada Viva, uniram-se ao coro os colectivos A’Mar Pedalar, Bicicultura, Braga Ciclável e Coimbr’a Pedal, que também lutam pela humanização das cidades e por mais apoios e incentivos aos modos de deslocação ambiental, social e economicamente sustentáveis. 

“Foi a última vez…”

Inspirados pela campanha internacional (“That day…”), lembramos as vítimas da estrada com histórias que mostram momentos em que as colisões pararam ou mudaram o curso da vida das vítimas para sempre. Cada vítima mortal tem sua própria história, que seus parentes, amigos e conhecidos carregam em sua memória. Cada vítima que sobrevive com ferimentos incapacitantes fica fisicamente traumatizada, para sempre. A carga emocional daquele dia é tão forte que permanece na nossa memória para sempre. 

Além disso, lembramos que evitar essas mortes e ferimentos está ao nosso alcance. E não é preciso ir até uma pequena localidade nórdica. Em Pontevedra (Espanha) a poucos quilómetros de Portugal, não há mortes na estrada há mais de 13 anos. Como? Restrições de tráfego para carros, com pedonalização das ruas e diminuição da velocidade máxima para 30 km/h. 

Em toda a Europa, Portugal é o país que menos investe em mobilidade activa. Não é por acaso que o país regista a maior taxa de mortes por atropelamento da Europa Ocidental. O que é que falta? Vontade política. Para transformar uma cidade é necessária vontade política.

Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada

A história do evento em memória das vítimas da estrada começou em 1993 no Reino Unido, com serviços religiosos coordenados pela instituição RoadPeace. A partir de 1995, outras organizações concordaram em lembrar as vítimas nos seus respectivos países no terceiro domingo de Novembro. 

O Dia foi chamado de “Dia Europeu da Memória”, mas logo se tornou “Dia Mundial”, quando ONGs da África, América do Sul e Ásia se juntaram. Em 2005, o dia foi adoptado, por unanimidade, pela Assembleia Geral da ONU como “o reconhecimento apropriado para vítimas de acidentes de trânsito e suas famílias”.

As campanhas e eventos têm como objectivo: 

  • lembrar todas as pessoas mortas e gravemente feridas nas estradas.
  • reconhecer o trabalho crucial dos serviços de emergência.
  • chamar a atenção para o carácter trivial da resposta legal  às mortes e ferimentos culposos nas estradas e defender uma resposta apropriadamente séria.
  • defender melhor apoio para as vítimas de trânsito e as famílias das vítimas.
  • promover acções baseadas em estudos empíricos para prevenir e, eventualmente, impedir mais mortes e ferimentos no trânsito.

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