No passado dia 12 de Janeiro, mais de 500 pessoas pedalaram entre Lisboa e Cascais, numa marcha de bicicleta em memória de Pedro Sobral. Esta manifestação, com o mote “Por ruas e estradas seguras para todos!”, mobilizou ciclistas e utilizadores de bicicleta de todas as idades para uma causa urgente: a defesa do direito à segurança e ao respeito no espaço rodoviário. Uma semana depois, dia 19, o Porto juntou-se às reivindicações, com uma centena de pessoas a pedir uma cidade segura para pedalar.
A iniciativa Estrada Segura para todos partiu inicialmente de um grupo de amigos de Pedro Sobral, cujo atropelamento mortal na Avenida da Índia, Lisboa, a 21 de Dezembro, se tornou tristemente célebre. Mas rapidamente o apelo se espalhou pelas várias comunidades de utilizadores da bicicleta e, além de uma sentida homenagem ao ciclista, tornou-se um momento de juntar vozes para reivindicar segurança nas estradas e ruas portuguesas.

© Jorge Marques
A MUBI – Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta não podia deixar de se aliar a este momento, apoiando e ajudando a divulgar esta iniciativa. Esta foi a primeira vez que, em Lisboa, comunidades de diferentes utilizadores da bicicleta — quotidianos e desportistas — se juntaram numa manifestação, unidos numa mesma causa.
Numa enorme mole humana que encheu a Marginal entre Lisboa e Cascais, e depois novamente em Lisboa e ao longo da Avenida da Índia, foram centenas os que marcaram presença para exigir mudanças no espaço rodoviário, mais respeito pelos utilizadores vulneráveis e mais segurança, nomeadamente, através da redução de velocidades nestes eixos e dentro das localidades.


© Artur Cardoso / Raul Fernandes
Mesmo antes do final, a Marcha passou pelo local onde Pedro Sobral foi atropelado, para um minuto de silêncio em sua homenagem. Neste sítio, em frente à Cordoaria Nacional, havia sido já colocada uma ghost bike (bicicleta pintada de branco em memória de uma pessoa que foi morta enquanto pedalava), por iniciativa do grupo de pessoas que participou na Massa Crítica de Dezembro.
A MUBi tem continuamente alertado para a falta de medidas corajosas para evitar tragédias como os atropelamentos fatais de Pedro Sobral e de Patrizia Paradiso — ver Avenida da Índia: a história de uma tragédia e os seus responsáveis.
© Lisboa para Pessoas
Cinco mortes em poucas semanas
Mas esta não é de todo uma causa que se restrinja à cidade de Lisboa. Infelizmente, por todo o país se tem assistido a um agravar das consequências da insegurança rodoviária, com o número de sinistros envolvendo bicicletas e vítimas mortais também a aumentar. Se por um lado há hoje mais bicicletas a circular, o que estatisticamente torna mais provável a ocorrência de sinistros, por outro lado, nota-se um grave desrespeito e falta de conhecimento das regras do Código da Estrada por parte de muitos automobilistas. É, por isso, urgente que os responsáveis políticos tomem medidas corajosas para transformar as nossas vias em espaços mais seguros para todas as pessoas.
Tragicamente, no mesmo dia em que decorria esta Marcha, um ciclista de apenas 17 anos perdia a vida em Arruda dos Vinhos. Nessa mesma semana, mais três pessoas morreram, vítimas de atropelamento enquanto circulavam de bicicleta, totalizando 5 mortes em poucas semanas.
Marcha de protesto no Porto
Também no Porto foi organizada uma marcha, no domingo 19 de Janeiro, numa colaboração da SL Porto da MUBi com a A’Mar Pedalar e outros colectivos e grupos desportivos preocupados com a insegurança rodoviária.
Apesar do tempo pouco convidativo, foram cerca de uma centena as pessoas que se reuniram de bicicleta na Ribeira do Porto e pedalaram até à Foz do Douro, incluindo um grupo que realizou um trajecto mais longo desde Matosinhos.
Tratou-se de uma manifestação silenciosa de homenagem às cinco pessoas mortas enquanto andavam de bicicleta no último mês, bem como a todas as outras que, infelizmente, são vítimas das ruas e estradas do país, reivindicando melhores condições para a mobilidade activa.
Ao longo do percurso, foi possível constatar a falta de condições de conforto e segurança para circular de bicicleta, sendo que a marginal do Porto (tal como a de Matosinhos e Gaia) podia e devia ser um eixo estruturante da mobilidade activa, a partir do qual se deveria configurar uma rede de percursos seguros para a deslocação em bicicleta. Ciclovias segregadas, ruas com limite de velocidade de 20km/h, zonas partilhadas e áreas condicionadas ao trânsito motorizado são necessidades prementes.


© Helder Silva
Prioridade: salvar vidas!
A prioridade das políticas públicas tem de ser salvar vidas, o valor mais alto consagrado na Constituição Portuguesa.
Eis um pouco de perspectiva, no âmbito da sinistralidade:
- Portugal é dos países europeus com piores índices de sinistralidade rodoviária dentro das localidades.
- A ENMAC 2020-2030 prevê a redução da sinistralidade envolvendo ciclistas em 25% até 2025 e em 50% até 2030. Mas esta Estratégia continua sem liderança política, sem articulação entre áreas governativas e sem recursos, e desconhece-se que alguma medida de redução do risco rodoviário tenha começado a ser implementada.
- A Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária 2021-2030 determinou a Visão Zero 2030… mas já estamos em 2025 (a meio da década) e o documento não foi ainda sequer aprovado!
A imagem abaixo expõe os números de vítimas mortais, entre 2020 e 2022, considerando o modo de transporte utilizado pelas mesmas e o outro modo de transporte envolvido na ocorrência.
Matriz de Vítimas Mortais de Sinistros Rodoviários 1
Durante estes três anos, morreram 1715 pessoas nas ruas e estradas de Portugal. De notar que, além das vítimas mortais, há números igualmente assustadores de pessoas cujos ferimentos e experiência traumática em colisões e atropelamentos são igualmente lamentáveis e evitáveis.
Estes dados mostram claramente qual é o veículo que deve estar sob vigilância e onde é preciso agir para prevenir e reduzir o perigo rodoviário. É preciso proteger a população da velocidade excessiva dos automóveis e de um desenho urbano concebido à medida destes.
É urgente proteger a mobilidade activa!
Com estas marchas simbólicas e solidárias, as diversas comunidades de pessoas que usam a bicicleta — desportistas e utilizadores quotidianos — gritaram a uma só voz que são urgentes acções concretas de redução do risco rodoviário e que coloquem a segurança de todos, e em especial dos mais vulneráveis, no centro das prioridades.
Relembramos as reivindicações da MUBi para cidades vivas e acessíveis:
- Planear cidades com uma mobilidade sustentável e justa, equilibrada com as restantes funções do território;
- Salvar vidas através da redução do volume e velocidade do tráfego motorizado;
- Construir espaços para todos, reforçando as condições para peões;
- Activar a mobilidade, incentivando a mobilidade em bicicleta, a pé e o transporte colectivo, em detrimento do uso do automóvel particular.
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