A maior Kidical Mass alguma vez feita no Porto

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A Kidical Mass no Porto reuniu pela primeira vez grupos de Vila Nova de Gaia e Gondomar, além de Matosinhos e Porto, no dia 11 de maio de 2025. A chegada dos quatro grupos junto ao rio Douro com um pelotão de cerca de 300 ciclistas (e dois cães) resultou num “Passeio Alegre” cheio de boa energia revolucionária na defesa da mobilidade em bicicleta.

As cidades do Porto, Gaia, Matosinhos e Gondomar têm vindo a testemunhar um aumento de utilizadores de bicicleta nos últimos anos. Vemos desde jovens a caminho da escola ou de eventos, a adultos que optam pela bicicleta para as suas deslocações diárias e mães e pais a transportarem os seus filhos na mais recente categoria de bicicletas de carga.

É notável que todo o movimento de bicicleta que observamos diariamente nas ruas é crescente e necessário. Quem “nos vê”, a transportar crianças ou com elas ao nosso lado de bicicleta, sorri e conseguimos ler-lhes o pensamento: As crianças vão mais divertidas. Precisam disto. E os adultos também. A rua também é nossa!

O que queremos?

Neste sentido, o passeio ciclístico dedicado às crianças busca reivindicar o direito delas à cidade, exigindo melhores infraestruturas para a mobilidade de bicicleta, medidas de moderação de tráfego (especialmente em zonas escolares), a redução do limite de velocidade para 30 km/h em áreas urbanas e o resgate do espaço público como espaço para a brincadeira.

A falta de infraestruturas cicláveis adequadas e a estagnação na criação de novas ciclovias são fatores que limitam um crescimento ainda maior do número de utilizadores. Um exemplo claro é a alegada via de Metrobus na Avenida da Boavista, no Porto, que se tornou uma ciclovia não planeada, demonstrando que, quando as condições surgem, as pessoas aderem.

O movimento e a dinâmica diária da mobilidade de bicicleta e a pé nesta importante artéria urbana comprovam que soluções semelhantes, implementadas numa rede unificada por toda a cidade, podem concretizar os objetivos da Kidical Mass para o espaço público.

10 medidas para devolver a cidade às pessoas

É importante frisar que a participação de todos neste evento é essencial para passar esta mensagem e que os pais, junto das escolas, podem também fazer parte do movimento criando iniciativas como comboios de bicicletas ou sugerir a instalação de bicicletários.

A expansão e a defesa do espaço público, para além da rua, contribuem para um ambiente urbano mais saudável junto a escolas, áreas residenciais, parques e espaços de lazer para todas as idades. Embora a prioridade ao automóvel ainda persista, a defesa do espaço público tem ganhado cada vez mais apoio.

A sensibilização nas redes sociais, com imagens e vídeos que mostram a realidade da predominância automóvel em paralelo com a vontade de mudança de muitos reflete a urgente necessidade de políticas que concretizem essa mudança . 

Este movimento a favor das crianças e do uso da bicicleta realiza-se duas vezes por ano, durante a primavera e o outono. Em Portugal, existe desde 2022 e tem felizmente contado com uma adesão cada vez maior.

Porto

A Kidical Mass no Porto teve início na Praça da República e seguiu para a Rotunda da Boavista junto à Casa da Música. O sol e a boa disposição de todos é visível nos rostos e a energia nos pés dos mais pequenos faz arrancar o pelotão em massa pela Rua da Boavista.

Uma escolta da polícia garante a proteção adequada nas ruas em relação ao trânsito motorizado, e o desfile decorre com cartazes a pedir por ruas mais seguras e espaços para brincar. Os mais pequenos enchem a rua, os adultos conseguem pedalar em segurança num cenário que podia ser o dia-a-dia.

O passeio segue pelas ruas António Cardoso, onde ao contrário da “aridez” da Rua da Boavista, somos protegidos pela sombra das árvores, no silêncio que o pedalar proporciona, ruidoso na mensagem que quer transmitir. O final junto ao rio Douro gerou a esperança de que os próximos tempos serão mesmo de revolução, se depender de todas as pessoas que diariamente pedalam nas ruas.

Testemunho de Peter Simon

A meio a sua aventura de bicicleta desde Amesterdão até Tarifa e o retorno à República Checa passando por Portugal, Peter Simon surpreendeu-se com a Kidical Mass do Porto:

“Não existem coincidências na vida. Não fazia ideia e definitivamente não fazia parte dos meus planos, mas participar neste evento foi, sem dúvida, um dos pontos altos dos últimos 3 anos e algo que nem sabia que precisava. Conectar-me a outros ciclistas! Todas as pessoas estavam tão conscientes! Não notei um único choque, conflito ou acidente, mas sim um sentimento de comunidade. Apenas união e paixão pela bicicleta!

Foi muito bom para ambos os cães resgatados (Frida e Dalí) descobrirem que não precisam de ter medo das pessoas ou de outras bicicletas. Eles desfrutaram de tanta atenção e carinhos como nunca, depois de tantos meses apenas comigo no ventre da mãe natureza. Fomos entregues num habitat perfeito, uma vez que evitámos as grandes cidades durante tanto tempo.

Foi um momento marcante depois dos sentimentos de solidão e do pensamento de que nunca mais serei capaz de entrar numa sociedade civilizada. Andar de bicicleta é “mindfulness” e consciência. A paixão pela bicicleta torna-nos civilizados. Nós continuaremos. Chegaremos à República Checa cheios de energia e a Kidical Mass tem grande parte do crédito pela forma como a minha visão do futuro se está a desenhar .”

Peter Simon

Gaia

A Kidical Mass de Gaia arrancou da praceta Salvador Caetano por volta das 14h45 com muita animação e mais ou menos 30 pessoas. Muitas famílias, crianças e gente de todas as idades partiram ao som das campainhas em desfile para o cais de Gaia. Um dos fatores mais energizantes foi a música animada e a boa disposição de toda a gente envolvida.

Na descida até ao cais, foi fantástico ver a animação das pessoas que nos viam passar. Não faltaram palmas, acenos e palavras de encorajamento. É sempre muito bom ver o efeito entusiasmante nas pessoas que nos vêm passar, revela a genuína simpatia que nutrem ao ver os pequenos ciclistas a percorrerem livremente as ruas da cidade.

Quando parecia que o desfile ia correr às mil maravilhas, fomos vítimas do trânsito intenso no Túnel da Ribeira. Ficámos cerca de 15 minutos à espera dentro do túnel, o pior sítio onde podíamos ter ficado parados!

Isto evidenciou precisamente a realidade que movimentos como a Kidical Mass querem mudar: a total e completa dependência automóvel e a falta de espaço para se poder circular livremente e com segurança nas nossas ruas.

Depois do aborrecido atraso, esperámos pelo grupo de Gondomar, que também teve o seu passeio atrasado pelo trânsito de carros. Porém, a boa disposição manteve-se e a pausa serviu de oportunidade para os mais pequenos brincarem na Praça Infante D. Henrique. Nada podia desanimar a malta!

Continuamos sem mais percalços pela marginal fora. Foram palmas, acenos, ciclistas a juntarem-se espontaneamente, a energia do desfile estava excelente, e, claro, fez-se novamente a festa quando nos juntámos com as mais de 200 pessoas da Kidical Mass do Porto que nos aguardavam no Jardim do Calém.

No momento em que a imensa massa de pessoas se  uniu, o efeito  foi quase avassalador. Cerca de 300 pessoas de todas as idades a pedalar rumo ao Jardim do Passeio Alegre. Custa-me a acreditar que aquela rua alguma vez tenha tido tantos mini ciclistas a passar por lá. 

Terminámos no Passeio Alegre junto a um mercado que decorria naquele momento. Imagino que para os comerciantes tenha sido muito bom tanta gente ter chegado lá. Se o mesmo número de pessoas tivesse optado pelo automóvel, teríamos uma fila de carros estacionados que se estenderia até Matosinhos.

Foi assim concluída a maior Kidical Mass alguma vez feita no Porto. Se este passeio evidenciou alguma coisa, foi algo que se torna muito óbvio quando se participa nestes eventos: o movimento de uma cidade não é feito pelos carros que andam nela, mas sim pelas pessoas.

Gondomar

Dia de sol, com nuvens grandes, cinzas, mas passageiras. Chego à Casa do Gramido, e estávamos lá a principiar algo importante. A mais jovem da turma teve um pequeno azar – um furo, e ganhou boleia na cadeirinha, ainda que a cadeirinha já lhe ficasse assim… apertada.

Seguimos. Faríamos um belíssimo trecho pedonal do Passadiço de Gondomar, que margeia o Douro até o Palácio do Freixo, sem nenhum sobressalto. Reencontramos os agentes da polícia  na Rotunda do Freixo e seguiu-se um passeio na estrada, às margens do rio Douro. Se não fosse pelos carros, navegaríamos como barcos rebelos pedaláveis.

Antes de encontrar a turma de Gaia, ficamos presos ao carro da polícia. Sim, isso mesmo. Não foi por maldade de ninguém. Havia um engarrafamento no Túnel da Ribeira, o que gerou um atraso de todo o cortejo. Encontramos nossas e nossos camaradas de Gaia, perto da Praça do Infante D. Henrique, onde trocamos de escolta.

A chegada ao Jardim do Cálem foi muito empolgante. Tínhamos ali uma grande Massa Crítica, que reunia agora a turma do Porto. Éramos muitos, plurais em idades, gostos, vontades e lutas. Crianças na frente, gente jovem de coração, gente experiente, e muitos sorrisos, muitos corações batendo no compasso das rodas.

O rio vibrava encantador quando chegamos ao Jardim do Passeio Alegre, sem graves ocorrências, com o apoio policial, que agradecemos, e com muita gente feliz. A turma de Matosinhos, já por lá, trouxe a cereja do bolo. Reunimo-nos para a foto e ficamos por ali ainda por mais de uma hora a pôr em dias as dores e delícias de pedalar.

Matosinhos

A Kidical Mass em Matosinhos concentrou-se na Praça Guilherme Pinto, espaço público aberto onde é frequente ver crianças a andar de bicicleta e outros meios suaves. Mas queremos que saiam destes locais confinados e tenham liberdade para se deslocar pelas ruas!

Qualquer receio de escassa adesão à atividade foi rapidamente dissipado, não só porque as nuvens abriram para uma bela tarde de sol, como porque, muito antes da hora marcada para a partida, já havia várias famílias com adultos e crianças prontos a partir.

Pelas 15:30, cerca de 50 pessoas de várias idades e em diferentes tipos de bicicletas, partiram pela ciclovia da Rua Sousa Aroso, a qual, como sabemos, dificulta as pedaladas por ser tão irregular. Chegados à marginal, seguimos alegremente e ao ritmo ditado pelos mais pequenos, despertando muitos sorrisos e alguns olhares de inveja saudável.

Em Matosinhos e já na Foz, tentámos seguir os traçados de “ciclovia” feita apenas com tinta, que não proporciona uma separação segura entre peões, bicicletas e carros. Com a atenção de todos, mantivemos um grupo unido e seguro, sem que houvesse qualquer incidente.

O maior desafio ocorreu na Rua Coronel Raul Peres, onde se mantém o trânsito automóvel com dois sentidos, mas o passeio e ciclovia são demasiado estreitos. Aí, seguimos mesmo pela ciclovia ao nível da estrada, o que não deixou muito boas sensações.

Por fim, e ainda com muita energia, fomos o primeiro grupo a chegar ao Jardim do Passeio Alegre, onde o espaço aberto e a sombra permitiram brincadeiras e convívio. A apoteose aconteceu com a chegada do outro enorme grupo.

Afinal há assim tantas pessoas que querem andar de bicicleta no dia-a-dia! É forçoso melhorar as condições para continuarem e aumentarem! Contamos com todos e mais alguns na próxima Kidical Mass!

Relatos de Francisco Castelo Branco, Gustavo Pelayo, Jean Soares e António Pedro.

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