A MUBi fez-se representar no Congresso ibérico da Bicicleta, que aconteceu entre 26 e 29 de Junho, em Santiago de Compostela, com organização da CONBICI e da FPCUB.

Três pessoas associadas partiram do Porto no comboio Internacional Celta até Vigo, onde um comboio de média distância nos levou a Santiago. É de notar que as condições deste comboio Internacional deixam muito a desejar para o transporte de bicicletas, para além de funcionar ainda a gasóleo e fazer bastante ruído. Já o comboio espanhol é mais moderno, no entanto, dispõe de apenas três lugares para bicicletas que são pagos. Numa das sessões do Congresso, um representante da Renfe informou que em breve essa taxa deixará de ser paga.
Rumamos a Santiago com muitas ganas de conhecer pessoas de organizações espanholas e de nos conectarmos, partilhando experiências e ideias para potenciais colaborações futuras. Foi com muita alegria que verificámos que a vontade de estabelecer e fortalecer a conectividade ibérica no âmbito da mobilidade ativa, particularmente em bicicleta, é comum a «nuestras hermanas e hermanos».
Antes do congresso, ainda no dia 26, fomos gentilmente acolhidos por um nosso associado, o Lucas Ramos, natural da Galiza e residente no Porto. Foi uma alegria o reencontro e um privilégio sermos guiados por alguém que cresceu em Santiago de Compostela e tem tanto carinho pela sua cidade. Curiosamente, foi na última viagem da MUBi, em Coimbra, que nos conhecemos melhor, e desde então, o Lucas envolveu-se ativamente na secção local do Porto.

O Congresso Ibérico da Bicicleta
O Congresso teve várias sessões de interesse, entre apresentações e oficinas, em temáticas como o género, o cicloturismo, a saúde, políticas públicas, estratégias de comunicação, ciclologística, participação cidadã, ciclomecânica, infraestrutura ciclável, entre outras.
Desde logo, gerou inspiração o plenário de abertura dado por Melissa Buntlet, que nos falou da importância de criar espaços inclusivos para todas as pessoas de todas as idades, desenhados com empatia pelas suas necessidades e respeito pelas suas capacidades, espaços que permitam a expressão da vitalidade.
Por exemplo, defende Melissa, os espaços de brincadeira para as crianças devem incluir algum risco, para que estas possam desenvolver capacidades motoras e psicofísicas, que também desenvolvem quando andam de bicicleta. Melissa mencionou exemplos como Barcelona, Bogotá e Montreal e defendeu a necessidade de novas lideranças políticas, a todos os níveis, que priorizem o impacto efetivo das medidas, isto é – a construção de um legado de mudança, em detrimento da manutenção do poder.
Evocando Jane Jacobs, defensora pioneira da participação cidadã no planeamento urbano, a convidada comentou que algumas mulheres em posição de autoridade política têm sido exemplo desta nova ética de que necessitamos, uma ética guiada pela empatia. Concretizar esta ética implica mais e melhor comunicação com residentes e efetivas práticas de incentivo à participação cívica, nomeadamente, por parte dos municípios.
A reflexão da Melissa fez-nos pensar numa caraterística intrínseca à natureza humana, como a toda a natureza – a vulnerabilidade. Ser vivo é ser vulnerável. As políticas urbanas e de mobilidade precisam de reconhecer e cuidar essa vulnerabilidade, incentivando formas de desfrutar o espaço público que celebrem a expressão das vulnerabilidades humanas, e as possibilidades de as vivenciarmos e nos apoiarmos mutuamente. Por exemplo, um espaço verde apetecível e seguro para pessoas idosas, cria oportunidades para que elas interajam e possam estabelecer relações de confiança e interajuda.
A MUBi, nascida da Massa Crítica de Lisboa, passando por fóruns e ferramentas digitais, agora apostando também em cicloviagens
A MUBi foi apresentada por Vera Diogo que expôs a evolução das nossas formas de comunicação e interação, de movimentos de base como a Massa Crítica para um predomínio gradual das formas de interação online. Nesta apresentação, destacou-se a nossa aposta em reforçar as relações humanas e a nossa presença física nos territórios, com mais encontros presenciais, corporalizando o nosso ativismo. Porque a acção humana é corporalizada e ao comunicar apenas por palavras há muita capacidade comunicativa e de engajamento colaborativo que se perde.
Ao longo dos processos de modernização e industrialização, os nossos corpos foram socializados para reduzir as suas sensibilidades, pois ,corpos dóceis, autocontrolados, enquadram-se melhor em sociedades de trabalho (Foucault, 2021). Agora, mais que nunca, em tempos conturbados, em que níveis excruciantes de sofrimento, nomeadamente em Gaza, são transmitidos, quotidianamente, por múltiplos meios digitais, os corpos humanos necessitam de compaixão.

Corporalizar o nosso ativismo passa por desenvolver uma ética intercorporal, que é comprometida com as relações humanas, consciente das relações de poder e capaz definir fronteiras saudáveis (Johnson, 2023). Isto significa que o respeito e o cuidado pelos outros deve ser uma prioridade, que devemos procurar ouvir não só o conteúdo do que as pessoas dizem, como o que o seu corpo está a dizer -─ como está a pessoa naquele momento. Significa também perder o medo de nos dar a conhecer, particularmente, nos aspetos vulneráveis.
Implica também contrariar a tendência dos papéis tradicionalmente dominantes, de modo a equilibrar as relações de poder. Por exemplo, incentivar mulheres e pessoas jovens, e/ou migrantes a tomarem iniciativa e a assumir lideranças. Envolve ainda a consciencialização dos limites de cada pessoa, que podem variar ao longo do tempo, sendo importante manter uma postura de aceitação dessas condições. Em suma, corporalizar o ativismo é humanizá-lo, é cuidar para que possa ser uma prática saudável para pessoas diversas, para que mais gente se possa mubilizar e manter mubilizada.

As cicloviagens, em grupo, foram destacadas como ferramenta de desenvolvimento organizacional que tem potencial para alcançar esses propósitos. Porquê? Porque, como já explorado noutros relatos de viagem, pedalar permite alargar a nossa amplitude somática, isto é, ampliar o leque de sensações, emoções e percepções que somos capazes de criar e sentir. Ao fazê-lo em conjunto, com o tempo, tornamo-nos mais sensíveis uns aos outros, mais atentos e capazes de antecipar movimentos para nos coodernarmos.
No ano de 2024, a MUBi fez duas viagens, a primeira, a Boticas, rumo ao Encontro Nacional pela Justiça Climática e outra, em parceria com a Coimbr’a Pedal, até à Figueira da Foz, desde Coimbra, onde participamos num debate com a vereadora do Urbanismo. Ambas as viagens aproximaram pessoas da MUBi, pois nestes locais e/ou durante as pedaladas conhecemos (melhor) pessoas e demo-nos a conhecer, confluindo-se vontades e identificando-se valores comuns.
Cicloficinas não mistas: a experiência no Porto
O projeto da Cicloficina Não Mista do Porto foi apresentado pela associada Ana Guerra Rosbach numa mesa de debate dedicada às questões de género e mobilidade em bicicleta. O evento serviu como espaço de partilha e reflexão sobre como a mobilidade urbana pode (e deve) ser mais inclusiva e segura para todas as pessoas.
Como parte da apresentação, e em colaboração com o coletivo Taller Radiantas, foi exibido um vídeo que retrata as experiências vividas nas cicloficinas não mistas e os seus desafios. A proposta foi dar visibilidade a estes espaços de autonomia, aprendizagem e apoio mútuo, criados para mulheres, pessoas trans e não-binárias. Uma versão curta do vídeo, que reúne algumas dessas experiências na Península Ibérica, pode ser vista através deste link. O vídeo completo está disponível aqui.
O evento foi globalmente uma boa experiência, incluindo dois passeios em bicicleta, um dos quais com uma animada performance do Lilicleta. Aos passeios, seguiram-se tapas e canãs e por estarmos em plenas festas do Barrio de Sanpedro, tivemos oportunidade de aprender a dançar a molinera e de assistir a concertos de bandas locais. Conhecemos também o famoso bar Avante, que é um exemplo vivo da relação entre Portugal e a Galiza, particularmente do carinho que os galegos têm pela nossa revolução dos Cravos.
Cicloviagem: Caminho de Santiago ao contrário
No dia 30 de Junho, começamos a nossa pedalada de regresso, com apenas duas paragens para dormir, em Pontevedra e em Valença. O plano inicial era, no terceiro dia seguirmos até Viana do Castelo, porém, a vida tem surpresas.

Estava bastante calor. Procurámos seguir o máximo possível pelos trilhos do caminho de Santiago, que têm bastante sombra. Hidratámo-nos e refrescámo-nos em fontes e riachos, sempre que possível.
Confirmamos, mais uma vez, como os conhecimentos de ciclo mecânica são fundamentais, como ilustra a foto abaixo. Uma das bicicletas, no primeiro dia, teve um problema que fez com que duas substituições de câmara de ar não fossem suficientes!

Quando viajamos em bicicleta, em conjunto, há muitas coisas que acontecem. Em qualquer viagem em grupo, estamos simultaneamente, com o grupo e connosco mesmos. Logo, cada viagem, são duas viagens paralelas: a viagem da conexão e a viagem da introspecção.
Quando viajamos entre amigos, é fácil esquecer de alguns aspetos que provavelmente prepararíamos numa viagem com pessoas menos próximas. Como por exemplo, questões relacionadas com ritmo de viagem e sensibilidades específicas, bem como o significado, as motivações e as expectativas de viagem para cada pessoa.
Neste caso, para além do calor, a nossa viagem foi dificultada pelo facto de uma das pessoas ter um problema de dor muscular que implica paragens para aliviar alguns músculos, e ainda pelo adoecimento de um dos participantes … (Não se enganem, o COVID ainda existe! 🙂).

Por esse motivo, e porque o relato já vai longo, não desenvolvemos, aqui, sobre o percurso desde Valença. Ficamos duas pessoas, com pena que a terceira pessoa não tenha podido aproveitar mais um dia. Para nos animar, tivemos a companhia de duas pessoas amigas de Viana do Castelo, do grupo Viana Ciclável. No entanto, só pedalamos até Vila Praia de Âncora, pois é preciso ouvir o corpo 🙂.
Quem se revê nesta partilha? Como têm sido as vossas experiências de viagem, em grupo?
Que aprendizagens destacam? Que influência tiveram nas vossas relações interpessoais?
Conheceste melhor as pessoas que viajavam contigo? Alguma influência na tua relação contigo mesmo?Terás aprendido algo mais sobre ti próprio/a?
Partilha connosco as tuas experiências de viagens, no fórum da MUBi, na categoria viagens! Os teus relatos podem inspirar outras pessoas associadas a cicloviajar e podem ser muito úteis a quem queira fazer trajetos semelhantes aos teus.
Com a MUBi, ningúem pedala só!
