No dia 29 de Março de 2025, organizaram-se dois encontros locais de grupos de pessoas que se deslocam em bicicleta e pretendem melhorar as condições das suas localidades para esta prática saudável e sustentável. Estes eventos aconteceram nas Caldas da Rainha e em Viana do Castelo. Deixamos de seguida algumas notas das reuniões para memória futura e aplaudimos as iniciativas, apelando aos habitantes destas regiões a que se envolvam em colectivos em prol da mobilidade urbana em bicicleta.
Viana Ciclável promove 1.º encontro

Em Viana do Castelo, o 1.º encontro Viana Ciclável foi realizado com o objectivo de reunir e criar laços entre os utilizadores de bicicleta em Viana do Castelo. Esta iniciativa permitiu revitalizar e trazer novos elementos ao Viana Ciclável, um grupo de ciclistas com presença online há vários anos.
O encontro incluiu um passeio de bicicleta pela cidade e periferia, seguido de um almoço de convívio, apresentações e conversas da parte da tarde.
No passeio, com a participação de mais de 50 pessoas, entre crianças e adultos e dos grupos “Rampinhas” e do grupo “Miúdos na bike”, tivemos oportunidade de conhecer as potencialidades da cidade para esta forma de deslocação, de observar pontos positivos como o facto de o centro urbano ser ciclável e pontos de melhoria como a falta de sinalização, inexistência de ciclovias em muitas áreas da cidade e a falta de continuidade e deficiências entre as existentes.
À tarde, o grupo reuniu-se para apresentações e conversas no espaço Dinamo10, espaço de coworking e hub criativo. Num primeiro momento, foram partilhadas as experiências da MUBi, representada por Vera Diogo; da Braga Ciclável, por Mário Meireles; da Kidical Mass, por Rita Ferreira, Fátima Simões e Lúcia Pedrosa; e da própria Viana Ciclável, representada por Tiago Bonito e David Mendes (apresentações disponíveis no Youtube). Após as apresentações, discutiram-se, em subgrupos de interesse um conjunto de propostas de acção que emergiram nas áreas de infra-estrutura e sensibilização, mobilização e visibilidade da Viana Ciclável e a participação activa em espaços democráticos, nomeadamente, considerando as vantagens e possibilidades de criar uma associação formal.
Este ímpeto teve continuidade em reuniões periódicas após o encontro, resultando para já, como acção concreta, a publicação de um Manifesto, incitando à inclusão activa da comunidade no processo de desenvolvimento do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS) do município de Viana do Castelo. A publicação e consulta pública deste plano aproxima-se, o que consiste numa oportunidade para efectivar e ampliar a participação de quem utiliza bicicleta.
Os Planos de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS), peças fundamentais para a promoção de cidades mais sustentáveis e resilientes, são uma obrigatoriedade definida pela Lei de Bases do Clima (Lei n.º 98/2021), que prevê a realização de sessões de esclarecimento e diálogo para assegurar a participação activa da comunidade na política climática. É neste âmbito que o grupo solicita a realização dessas sessões de esclarecimento e debate, para garantir que as preocupações, propostas, experiências e conhecimento dos utilizadores de bicicleta sejam integrados no documento final.
A utilização da bicicleta como meio de transporte quotidiano, deverá ser definitivamente encarada como um elemento central na mobilidade do concelho, contribuindo para a qualidade de vida, segurança rodoviária e combate ao congestionamento, à poluição e às alterações climáticas.”
O manifesto apresenta várias medidas concretas para garantir que o investimento em infra-estrutura ciclável é bem concretizado, bem como para proteger e promover esta forma de mobilidade. “Mais importante do que grandes infra-estruturas é garantir percursos seguros e contínuos que inspirem confiança nos novos utilizadores” afirma o grupo.”
Este manifesto foi subscrito pelo Campeão Olímpico de ciclismo Iuri Leitão, por mais de 150 personalidades de Viana do Castelo, por empresas da indústria de bicicletas e associações promotoras da mobilidade activa, incluindo a MUBi.
Podem seguir a Viana Ciclável no instagram e no facebook e contactar o colectivo através de correio eletrónico.

Encontro de grupo de cidadãos nas Caldas da Rainha
Neste encontro organizado por cinco pessoas que usam bicicleta nesta localidade, estiveram presentes cerca de 15 pessoas.
A Susana Simplício fez uma breve introdução sobre os objectivos do Encontro – o arranque de um grupo de ciclo-activismo para promover uma cidade mais ciclável. Tendo como foco todas as pessoas que andam ou gostariam de andar de bicicleta, e que querem fazer parte da construção e mudança da cidade.
Um dos objectivos passa por tornar a bicicleta mais presente na cidade e no quotidiano das pessoas, mas também chegar às crianças para uma mudança real de cultura e mentalidades no futuro.
Para além de si, apresentou os restantes membros do grupo: Luís Vieira, Luís Favas, Kevin Claro e Francisco Madeiras.
O Luís Vieira iniciou a sessão pedindo uma roda de apresentações, convidando cada participante a partilhar a sua história de vida ligada à bicicleta, para que nos pudéssemos conhecer melhor.
Começaram por falar quatro ou cinco pessoas, e foi interessante perceber que a bicicleta teve um papel importante na infância da maioria dos presentes. As primeiras intervenções foram muito disciplinadas e mantiveram-se no plano pessoal, sem abordarem directamente as políticas públicas. No entanto, um tema foi transversal: apesar de alguns se considerarem destemidos, todos reconheceram que a principal razão para muitas pessoas não andarem de bicicleta numa cidade que é literalmente de 15 minutos é simples e comum: o medo.
Medo de serem abalroadas por carros. Que fique claro.
Além das intervenções de quem utiliza a bicicleta como meio de transporte (mesmo entre aqueles que também praticam ciclismo de estrada), houve a participação de um dono e gerente de três lojas de bicicletas (Caldas, Vila Franca e Torres Vedras). A sua intervenção foi particularmente interessante: demonstrou cuidado em separar o seu interesse comercial da sua presença ali como cidadão. Organiza passeios promovidos pela loja e, apesar da sua ligação ao ciclismo desportivo, explicou que é essencial ocupar o centro da via – algo que nos surpreendeu, mas que é excelente, possivelmente por ser uma visão mais recente. Mostrou-se um aliado da causa e ofereceu-se para emprestar bicicletas, permitindo que cidadãos e políticos experimentem na prática os desafios das ruas. Como ciclista de estrada, reconheceu que a maioria das ruas nas cidades portuguesas não têm espaço para ciclovias e, por isso, empatizava com os políticos que não encontram soluções para o problema. Contudo, esta reflexão reflecte um “ângulo morto” relativamente às possibilidades das políticas públicas para redução do número e da velocidade dos automóveis em meio urbano – uma limitação que até é partilhada por muitos ativistas da bicicleta . Precisamos de mudar de perspectiva para ver que algumas ruas não têm é efectivamente espaço para carros, pois não foram originalmente desenhadas para eles, e mesmo quando o foram, se o o seu uso coloca em causa todas as outras formas de deslocação e outras funções do espaço, há que reconsiderá-lo. Destacamos esta intervenção, porque foi uma das que fugiu à nossa “bolha” habitual e revelou um aliado importante para o futuro, tanto na disponibilização de bicicletas como na ligação entre o ciclismo utilitário e o desportivo.
Em seguida, falou o presidente da Junta de Freguesia de Salir, que abordou a questão cultural e o receio de furtos de bicicletas, preocupação que foi confirmada por outros participantes. Surpreendeu-nos que roubos fossem um problema nas Caldas.
Nessa altura, Mário Lino, coordenador do Museu do Ciclismo e anfitrião do evento, fez uma longa intervenção, menos pessoal do que se esperava – seria interessante saber porque dedicou a sua vida à bicicleta e ao museu. O seu foco foi essencialmente o ciclismo desportivo, mas defendeu uma tese comum e apreciada por muitos: “Todos os ciclistas são também condutores, e todos os condutores são também ciclistas”, pelo que não faz sentido colocar uns contra os outros. No entanto, esta ideia simpática é apenas parcialmente verdadeira – há ciclistas que não são condutores e, crucialmente, a maioria dos condutores não são ciclistas, o que pode explicar, por vezes, a falta de empatia e civismo ao volante.
Aproveitando este desvio do tema inicial, o vice-presidente da Câmara Joaquim Caetano, fez a sua intervenção – um momento de viragem no encontro. Começou por dizer que vinha preparado para ouvir “especialistas” e afinal só estava a ouvir “apaixonados pela bicicleta”. Apesar de até então não ter havido críticas directas à actuação da Câmara, sentiu necessidade de se defender. Redireccionou o debate para a cultura e aconselhou os presentes a deixarem a paixão pela bicicleta de lado. Disse que o mundo não muda de um dia para o outro e que a autarquia estava a fazer o possível. Atribuiu o fracasso do projecto das “Rainhas” a uma herança do executivo anterior e dissertou sobre o facto de estar ali como político e não como cidadão, pois tinha responsabilidades. Talvez tenha ficado desconcertado com a proposta inicial de partilharmos experiências pessoais – admitiu que estava à espera de palestras de especialistas e, claramente, não quis falar da sua própria vivência. Houve até um momento de controvérsia cómica: afirmou nunca ver bicicletas estacionadas à porta da Câmara, o que foi prontamente desmentido por várias pessoas na sala, que garantiram vê-las com alguma frequência.
Na intervenção da MUBi, o Mário Alves reforçou a importância de reduzir a velocidade do tráfego através de medidas físicas de acalmia, reconhecendo que a questão cultural também é relevante. Acrescentamos que o apoio político pode ajudar a impulsionar essa mudança através do investimento em iniciativas como ciclo-oficinas e “comboios de bicicleta”.
Entretanto e já resultado desse encontro foi lançada a página no Instagram (Caldas+Ciclável) e outra no Facebook (Caldas+Ciclável)
Se vives nas Caldas ou próximo contacta a Caldas + Ciclável!

Pontos comuns dos dois encontros
i) a importância e urgência da redução do perigo rodoviário, porque continua a ser uma das principais barreiras ao uso quotidiano da bicicleta.
ii) a pertinência da solidariedade e aliança entre o ciclismo utilitário e o desportivo.
iii) a importância basilar da participação da comunidade nas decisões do município.
iv) a necessidade e relevância da colaboração entre organizações com visões semelhantes de cidades saudáveis, sustentáveis, inclusivas, justas e participadas.
Estes pontos comuns, provavelmente, surgiriam em diálogos e partilhas, em muitas mais localidades do país. Por isso, a MUBi está empenhada em apoiar momentos de reunião, oportunidade de gerar interconhecimento e criar dinâmicas de colaboração, por todo o país. É urgente agir colectivamente, unindo esforços para defender uma forma tão simples de melhorar a vida humana, quer a nível individual, quer comunitário – deslocar-se em bicicleta e a pé, de forma segura, eficaz e eficiente. Tais esforços passam pelo alerta aos poderes públicos, pela participação activa sistemática em momentos de auscultação e diálogo entre decisores políticos e os cidadãos, e também pela sensibilização da sociedade civil. Num momento de crise climática sem precedentes, defender a mobilidade activa é fundamental, obviamente, para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, e ainda como chave para a reestruturação do modelo de cidade – para uma cidade à medida das pessoas e com mais área verde. Avizinhando-se as próximas eleições autárquicas, num momento de instabilidade política em Portugal, é necessário trazer estes assuntos verdadeiramente graves e urgentes para o debate político. É fundamental criar condições para que a mobilidade activa seja uma prioridade em todas as localidades do país. Para exigir sistematicamente essas condições, acompanhando as medidas de política, dialogando com as instituições e tomando iniciativas de promoção do uso da bicicleta, a sociedade civil precisa de mobilizar-se e organizar-se.
O nosso Manifesto Cidades Vivas, agora actualizado para as eleições autárquicas de 2025, pode servir de inspiração para pensar como propor medidas que concretizam a transformação necessária às nossas cidades.