A Câmara Municipal do Porto anunciou, no dia 17 de abril de 2015, o início da realização de alterações no ordenamento do trânsito da rua Costa Cabral, no Porto, para o dia 21 de abril, sem qualquer auscultação prévia de moradores e utilizadores da rua. As alterações, segundo a CMP, visam disciplinar o estacionamento, evitando o congestionamento que se verifica em alguns períodos do dia e “melhorar a acessibilidade”.
As medidas anunciadas constam no seguinte:
- criação de linhas contínuas ao longo da rua;
- separadores através de “balizas de posição cilíndrica flexíveis” nas zonas das interseções;
- criação de lugares legais de estacionamento;
- criação de zonas de cargas e descargas;
- permissão de motociclos e ciclomotores circularem nos corredores BUS.
- criação de barreiras “mais eficazes” para peões nos passeios junto a Escolas e Equipamentos Desportivos.
Tendo em consideração que:
- o aumento de velocidade de circulação dos autocarros, dos motociclos e dos ciclomotores vai aumentar o perigo para os utilizadores vulneráveis, numa rua que tem uma elevada intensidade de utilização pedonal;
- a criação de linhas contínuas vai aumentar os conflitos com os utilizadores de bicicletas que usam diariamente esta artéria, pois não permite aos condutores de automóveis ultrapassá-los legalmente, ocupando, como exige a lei, a via de trânsito adjacente;
- a rua é escolhida por muitos utilizadores de bicicleta das zonas a norte e nordeste do Porto, para aceder ao centro da cidade, mesmo incorrendo na ilegalidade de percorrer algumas vias reservadas a BUS, dado que a rua em questão é a única que nesta área da cidade tem condições mínimas de segurança e de acessibilidade direta ao centro. A alternativa, através da avenida Fernão de Magalhães, apresenta velocidades demasiado elevadas, um volume de tráfego incompatível e uma inclinação que desencoraja a sua utilização por bicicleta;
- a proposta não irá resolver os problemas estruturais de segurança, mobilidade e acessibilidade nesta rua;
A MUBi propõe a suspensão das alterações e a sua revisão no âmbito de uma consulta pública amplamente participada, tendo em conta um conjunto de princípios de ação que garantem a aplicação de melhores práticas europeias no que diz respeito à redução do perigo dos utilizadores mais vulneráveis. Neste caso em concreto, tal implicará:
- Retirar o tráfego de atravessamento motorizado individual no sentido da saída, dado que existe uma via, a avenida Fernão de Magalhães, destinada a este fim. Tendo em conta que a largura da rua e a intensidade de utilização pedonal é incompatível com o excesso de tráfego individual motorizado, que para além disso prejudica a eficácia dos autocarros e afeta a segurança dos utilizadores vulneráveis.
- No entanto para o restante tráfego deverá ser garantida a possibilidade do uso da via como entrada e saída da cidade em ambas as direções. Tal implica criar vias BUS & Bici (partilha de via BUS pelas bicicletas, mas não pelos motociclos e ciclomotores). Ver comunicado da MUBi sobre as vias BUS & Bici, que já fora enviado à vereadora da Mobilidade aquando da sua publicação pela MUBi, em setembro de 2014; A via já é efetivamente usada pelos utilizadores de bicicleta na ligação ao centro da zona nordeste do Porto e às áreas periféricas envolventes, dado que é a única que apresenta condições de segurança, inclinação e acessibilidade direta nesta zona da cidade, o que é demonstrado pelo facto de preferirem incorrer na ilegalidade de percorrer as faixas BUS (com a tolerância, aliás, de taxistas e condutores de autocarros) do que optarem por outros percursos.
- Limitar a velocidade a 30 Km/h em toda a rua ou pelo menos nas zonas de maior densidade de comércio e equipamentos, que por sinal constituem as zonas mais condicionadas em termos de largura da via e dos passeios (ver comunicado da MUBi sobre acalmia de tráfego). Esta medida deve ser acompanhada de medidas físicas e de controlo de velocidade adequadas. A manutenção das linhas de traço descontínuo nas zonas sem interseções, permitindo a ultrapassagem segura e legal de veículos mais lentos, nomeadamente as bicicletas (com uma distância mínima de 1,5 m e com ocupação via de sentido contrário por parte do veículo que está a ultrapassar, nos termos do código da estrada) permitirá que mesmo os utilizadores de bicicletas mais vulneráveis e com menores velocidades de deslocação tenham a confiança necessária para utilizar este modo de transporte nesta rua. Já existem soluções testadas por toda a Europa que permitem uma eficáz segurança dos mais vulneráveis: por exemplo, uma pesquisa pelo termo “ciclocalles”, num motor de pesquisa da Internet, permite observar exemplos de boas soluções implementadas aqui mesmo ao nosso lado… Espanha (ver fotografias em anexo).
- Defendemos um adequado desenho urbano das interseções, que impossibilite ou dificulte o estacionamento ilegal nessas zonas, mas que defenda os utilizadores vulneráveis, nomeadamente os peões, no atravessamento das ruas. As balizas flexíveis são uma solução viária não adequada a zonas urbanas: dão uma sensação de falsa segurança, estimulando velocidades excessivas em contextos onde a atenção e a redução de velocidade é crucial. As plataformas elevadas à cota do passeio permitem em muitos casos corresponder a estes objetivos, pelo que devem ser implementadas.
- Concordamos com uma maior fiscalização nas horas e pontos mais críticos, relativamente ao estacionamento ilegal, seja através da Polícia Municipal, na sua área de atuação, nomeadamente o estacionamento legal pago, seja através de influência junto da Polícia de Segurança Pública, para um policiamento mais eficaz do estacionamento ilegal e de outras infrações; Esta fiscalização, a par da redução do tráfego de atravessamento, permitirá minorar através do seu efeito preventivo, os maiores constrangimentos à velocidade comercial dos autocarros, dado que permitirá libertar lugares legais para estadias curtas (fiscalização do estacionamento legal pago) e evitar o estacionamento ilegal e os constrangimentos que provoca.
A Câmara Municipal do Porto, ao manter a intervenção agora anunciada, aliás com uma antecedência excessivamente curta em relação à data de execução, demonstrará definitivamente o seu desprezo pelos utilizadores vulneráveis e pelos modos sustentáveis de deslocação, contribuindo assim para o incremento dos problemas de mobilidade e de acessibilidade que, supostamente, pretende resolver. Atuando desta forma, dá deliberadamente prioridade aos veículos individuais motorizados no espaço urbano, sem melhorar definitiva e decididamente a circulação de transportes coletivos de passageiros.
Membros da MUBi efetuaram uma observação, na sexta-feira de 10 de outubro de 2014, entre as 19h e as 20h, e contaram-se, no cruzamento da rua de Costa Cabral com a avenida dos Combatentes, vinte e oito utilizadores de bicicleta urbanos.
É absolutamente incompreensível que a edilidade insista em promover meios de locomoção motorizados, discriminando negativamente alternativas sustentáveis que podem tornar a cidade mais humana e mais aprazível, dinamizando, por conseguinte, o comércio local.
Entretanto, e tendo em consideração a urgência e importancia do assunto, foi aberta uma petição pública na Internet para a suspensão e revisão das alterações na rua Costa Cabral no endereço: http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT76849 contando já com cerca de 100 assinaturas.
Ciclocalles em Espanha:


