Viagem em Coimbra: Activismo e Comunidade

A nossa acção em Coimbra, entre 1 e 2 de Junho, foi motivada pela vontade de colaboração, de proximidade cara a cara, de companheirismo, pedalada a pedalada.

A vontade de estar presente em distintos territórios, espalhando a magia da bicicleta e mostrando como ela é, não só viável, mas única, como modo de transporte e de transformação pessoal e social.

Figura 1 – O encanto de Coimbra

A recepção foi amistosa na estação ferroviária, por um companheiro da Coimbr’a Pedal, que logo nos levou a explorar a Mata Nacional do Choupal e o Parque Verde do Mondego. Neste parque, parámos para conversar e também para nos mover em conjunto, através de uma dinâmica de grupo que incita a consciência da nossa mútua dependência e da necessidade de colaboração.

 Figura 2 – Chegada a Coimbra B

Nessa tarde, depois de um almoço animado, participamos no debate, organizado pela Coimbr’a Pedal, sobre a mobilidade em bicicleta em Coimbra.

O painel moderado pelo Duarte Miranda e pelo Luís Oliveira da Coimbr’a Pedal e contou com a presença de Ana Bastos, vereadora com o pelouro do Urbanismo e Transportes da Câmara de Coimbra e professora da Universidade de Coimbra, autora dos manuais de apoio à implementação de Zonas 30 e de Zonas Residenciais e de Coexistência; Mário Alves, especialista em transportes e mobilidade com o grau de mestre pelo Imperial College London, fundador e dirigente da MUBi, presidente da Estrada Viva e secretário-geral da Federação Internacional de Peões; Vera Diogo, socióloga, ambientalista, feminista, dirigente da MUBi e Bicycle Mayor da cidade do Porto;  Luís Vieira, gestor de projectos e consultor na área da mobilidade activa, coordenador geral dos comboios de bicicletas operados pela Cooperativa Bicicultura (CicloExpresso); e João Bigotte, professor da Universidade de Coimbra e membro do Centro de Investigação em Território, Transportes e Ambiente (CITTA).

Figura 3 – Debate sobre a Mobilidade em bicicleta, em Coimbra

Foi sublinhada por vários dos participantes a importância de uma intervenção multidimensional que contemple não apenas a infra-estrutura, como a cultura, a economia, o ordenamento do território e a dimensão institucional que a transformação de padrões de mobilidade envolve. Por isso, vários saberes e diversos olhares necessitam cruzar-se na definição de políticas públicas.

Esse contexto foi resumido e repetido na frase que deu o mote ao parecer que escrevemos em conjunto com a Coimbr’a Pedal – um plano de promoção do uso da bicicleta, não é um plano de ciclovias.

Um dos temas abordados foi a necessidade de questionar o actual modelo económico e do sistema político, que necessita de algum grau de aceitabilidade para avançar com medidas favoráveis à mobilidade activa e que, em muitos casos, implica uma restrição ao estacionamento e circulação automóvel. A vereadora Ana Bastos opinou que não é possível tomar medidas restritivas ao automóvel, numa situação de obra (referindo-se à construção do BTT). Na sua perspectiva estas medidas deverão ser tomadas depois da inauguração do novo sistema de Transporte Público, no início de um potencial segundo mandato. Foi, no entanto, contraposto que é precisamente nos projectos estruturais de Transporte Público que se deve incluir a transformação da cidade, de forma que seja mais amigável dos modos activos. Deveria ser também a oportunidade para a realização de um plano de mobilidade que inclua um debate alargado sobre o que se quer do futuro da cidade. Só com uma participação activa de todos se poderá incluir no plano medidas percepcionadas como populares ou impopulares por parte da população, de forma a atingir os fins consensualizados por todos. Esperar por tudo estar pronto, para começar a pensar no futuro desejado, será uma oportunidade perdida.

Salientou-se também a responsabilidade de várias instituições, nomeadamente as escolas e as instituições de ensino superior. Porquê? Porque tudo começa pela educação. Obviamente, começamos a aprender antes de chegar à escola. Porém, é nela que frequentemente desaprendemos, de modo mais sistemático, a ligação com o nosso próprio corpo, através do condicionamento do nosso movimento no espaço e, logo, das nossas relações com o mesmo. Assim, se faz inculcar a cultura sedentária e instituir um poder disciplinar que produz “corpos dóceis”, máquinas ao serviço de um ideal de razão funcionalista (Foucault, 2021 [1975]).

Justamente, a infância e o acesso das crianças à mobilidade activa foi um dos temas discutidos. Foi sugerido pelo convidado Luís Vieira que o planeamento urbano, particularmente a infra-estrutura protectora da mobilidade activa, fosse pensado da perspectiva de um pai ou mãe com duas crianças. É urgente proteger os mais vulneráveis dos vulneráveis e garantir um direito que é ao mesmo tempo condição de saúde, vitalidade e desenvolvimento pessoal e social.

No actual contexto de dominação da mobilidade e da ocupação do espaço público pelo automóvel, quem se desloca a pé ou de bicicleta, modos marginalizados, sente na pele as formas pelas quais “o político vive nos nossos corpos e movimentos” (Watkins s.d in Johnson, 2023:49). Um aspecto desta dominação é a banalização da ocupação ilegal do espaço com estacionamento automóvel, mencionada por um dos participantes do debate, limita a visibilidade de quem se desloca activamente e transmite a sensação de impunidade de alguns, em detrimento da segurança de outros. A criança que não pode ser vista por cima dos veículos está particularmente vulnerável.

A consciência do carácter incorporado e corporalizado da nossa experiência pessoal e colectiva, motivou a viagem intermodal que realizámos no segundo dia, entre Coimbra e a Figueira da Foz, com regresso a Coimbra e restantes destinos de comboio.

 Figura 4 – Trajecto realizado
Figura 5 – Foz do rio Mondego

Pedalar em grupo move dois eixos da identidade pessoal – a introspecção e o sentimento de pertença (Cox, 2019), pois estamos em grupo e sempre connosco mesmos, numa experiência sensorial que gera sensibilidades colectivas (Maffesoli, 1996). “Ao movermo-nos em conjunto, quebram-se barreiras entre os corpos”, ideias, emoções e sentimentos fluem de um modo mais livre, transmitem-se “não apenas pela comunicação” verbal e não verbal, mas também pela “experiência de humanidade partilhada” (Cox, 2019:140:141). Gera-se assim um sentimento móvel comum, que pode ser definido como “ambiente emocional (background mood)” do grupo.

Um dia depois da viagem, pedimos a cada participante para definir a experiência em três palavras, que reunimos na imagem abaixo.

Figura 6  – Bicicleta de palavras

Estas palavras reflectem o ambiente emocional do grupo. Será curioso que um grupo de pessoas que na maioria não se conheciam, ou se conheciam pouco, se sinta em comunidade?

“A nossa experiência da realidade depende da qualidade da percepção somática que trazemos ao nosso envolvimento no mundo” (Johnson, 2023:54). Note-se que “soma” significa corpo vivido e na perspectiva somática, a mente faz parte da experiência vivenciada corporalmente. A nossa percepção social e cognitiva constrói a realidade. Assim, podemos construir comunidade, porque a percepcionamos pela experiência de humanidade partilhada, pedalada a pedalada, pela partilha de valores e  modos de valorizar e nos relacionarmos com o território, pela troca de experiências de pedalar em diferentes cidades, pela troca de ideias sobre formas de desenhar as cidades para a mobilidade activa.

Como se relaciona o cicloturismo com a experiência urbana de pedalar para o trabalho?

Se é um lugar-comum que uma deslocação casa-trabalho seja partilhada dentro de um automóvel, a mesma partilha em bicicleta não está enraizada no nosso imaginário, actualmente. No entanto, quem se desloca em bicicleta com crianças tem essa experiência, mesmo nas condições precárias das localidades portuguesas. Quando são criadas condições para que pessoas possam circular lado a lado, de modo seguro e agradável, são também geradas sensibilidades colectivas, podendo considerar-se uma actividade social (Cox, 2019). Em Portugal, ainda que o código da estrada admita a circulação a par, a experiência da “legitimidade precária” (Egan & Philbin, 2021) desincentiva esta prática, pois não há reconhecimento social deste direito, nem efectiva protecção legal e judiciária.

Como se relacionam as experiências de cicloturismo com o activismo pela defesa da mobilidade activa, particularmente em bicicleta?

A diferenciação entre diversas utilizações da bicicleta, nomeadamente, para lazer, para desporto e para as deslocações ditas utilitárias, é útil, para contrariar a representação limitada deste veículo como equipamento desportivo, ou de lazer. A defesa da mobilidade em bicicleta, sempre centrada na criação de condições para que qualquer pessoa que o queira fazer, se possa deslocar deste modo, em segurança e conforto, no seu quotidiano, deve ser abrangente a todas as suas utilizações. É certo que o nosso quotidiano é dominado pela mobilidade pendular, no entanto, a bicicleta permite-nos questionar a divisão dualista entre utilidade e lazer, pois temos prazer ao pedalar com destino a qualquer obrigação laboral ou social.

O activismo pela mobilidade em bicicleta ganha quando estas diferenciações não impedem o sentimento de uma identidade comum baseada na partilha de uma forma de experienciar sensorialmente o espaço e de nos relacionarmos com ele, de expressar modos de ver e sentir os lugares e as paisagens, modos de pertencer (Cox, 2019). Não é surpreendente que a palavra mais repetida, na imagem acima, tenha sido a de comunidade, seguida da palavra partilha.

Assim, vivenciamos que estas experiências de cicloturismo nutrem a nossa motivação para continuar a agir em defesa da utilização da bicicleta em ambiente urbano, em prol de todos os benefícios que esta pode trazer à humanidade e à vida na Terra. As memórias criadas transformam os locais percorridos em histórias partilhadas que nos conectam e poderão favorecer a conexão simbólica de quem nos lê, nos vê e nos imagina nestas paisagens.

        Figura 7 – Chegada à Figueira da Foz

Referências

  • Cox, P. (2019). Cycling: Toward a sociology of vélomobility. Abingdon: Routledge.
  • Egan, R. & Philbin, M. (2021): Precarious entitlement to public space & utility cycling in Dublin, Mobilities, DOI: 10.1080/17450101.2021.1913067
  • Foucault, M. (2021[1975]). Vigiar e Punir. Lisboa: Edições 70.
  • Johnson, R. (2023). Embodied Activism. Engaging the body to cultivate liberation, justice and authentic connection. Berkeley: North Atlantic Books.

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